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Luz Arquitetônica & Design

 

 

ARTIGOS

 

 

7 Dicas para aproveitar melhor a Luz Natural

out/2016

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     Nesta semana, como ocorre anualmente desde 1985, iniciou-se o horário de verão em grande parte do território nacional. Em tese, a medida gera economia de energia elétrica, uma vez que a Luz Natural pode ser utilizada em uma parcela maior do dia produtivo. Alvo de críticas e de reclamações de uns, mas apreciado por outros, é um assunto que desperta sentimentos extremos. 

Mas porque aproveitar melhor a Luz Natural somente durante 4 meses do ano? O Brasil é privilegiado com uma quantidade farta de Luz Solar durante o ano todo e através de medidas simples e baratas, aplicadas com certos cuidados, é possível gerar economias significativas. 

 

     É importante ter sempre em mente que a Luz Solar traz consigo o calor. Todos os sistemas eficientes para o aproveitamento da iluminação natural têm uma grande preocupação com o controle de temperatura. Portanto não estranhe que falaremos muitas vezes de conforto térmico e algumas vezes também do acústico, dado que uma abertura que permite a entrada de luz e calor, tende também a ser permeável a ruídos.

 

     Além disso, nosso país tem situações geográficas muito discrepantes no que se refere à incidência do Sol e também às condições climáticas. Portanto quero chamar a atenção de você, leitor, para alguns cuidados que deve ter, mas não tenho condições de dar fórmulas aplicáveis em qualquer condição.

 

     1.    Direcione suas aberturas corretamente


     Embora em cidades grandes não tenhamos condições de abrir janelas somente para as direções mais favoráveis à iluminação natural e ao conforto térmico, mas podemos dar preferência para apartamentos, conjuntos comerciais e lojas cujas janelas dos ambientes mais importantes estejam direcionadas favoravelmente.


     A luz direta do Sol é particularmente importante em dormitórios, dada sua propriedade bactericida, mas o Sol traz consigo também o calor. No hemisfério Sul, a luz solar proveniente do Leste é a mais apropriada para dormitórios, pois durante a noite a fachada do edifício se resfria e o sol aquece-a aos poucos, de modo que no horário que grande parte da população já acordou e saiu do quarto o ambiente foi menos aquecido. No caso do Oeste, o edifício já esquentou durante todo o dia (pois não só a radiação direta esquenta) e ao receber luz direta se aquece ainda mais. 


     Da direção Norte, temos a maior incidência de luz durante o dia, mas em compensação, esta luz vem na maior parte do tempo de cima, portanto é relativamente fácil bloqueá-la e aproveitar somente a luminosidade, sem a radiação direta. Da direção Sul, recebemos muito pouca luz natural, em especial no inverno, embora seja uma luz muito uniforme, pois é proveniente da reflexão do Sol nas nuvens e na “abóbada celeste”.


     Há ainda a possibilidade, em alguns casos, de abrirmos aberturas no teto (tais como claraboias, sheds e lanternins), aproveitando a iluminação zenital (zênite é, em termos simplificados, o ponto mais alto da abóbada celeste), que é muito mais abundante do que em qualquer um dos pontos cardeais e, por consequência, a que mais calor tende a gerar no interior dos ambientes. Além disso, esta solução também permite a entrada de luz direta do Sol, e precisa ter proteções para evitar que a radiação direta atinja locais indesejados. Embora seja uma solução especialmente complexa, tem resultados excelentes em espaços grandes com grande circulação de público, como galerias, museus e shoppings, pois cria uma atmosfera de espaço aberto.
Mas alguns fatores comprometem a lógica do que falamos acima, pois esta não leva em consideração os edifícios vizinhos e demais elementos externos.

 

     2.    Fique atento aos vizinhos


     Edifícios vizinhos, ou mesmo grandes massas de vegetação ou o próprio relevo podem alterar significativamente a incidência de luz natural em seu edifício. Nos últimos anos, além das sombras emitidas por estes vizinhos ainda temos a variável de edifícios espelhados que refletem a luz solar, permitindo que atinja locais que não estão preparados para recebe-la.
 

     Estas interferências externas, sejam de sombreamento ou de reflexão, podem ser aproveitadas, mas são elementos que fogem ao controle do projeto, dado que são propriedades públicas ou de terceiros.
 

     Uma forma simples de saber se teremos grande contribuição de luz natural, conforme o direcionamento que falamos no item 1, é observar o quanto do céu você consegue enxergar a partir da janela ou abertura zenital do seu edifício: quanto mais, melhor, contanto que atentemos para os itens a seguir.
 
3.    Dimensione suas aberturas corretamente em relação ao tamanho do seu ambiente


     O alcance da luz natural está diretamente ligado à geometria do ambiente. Trata-se, principalmente, de uma proporção entre a altura da janela ou outra entrada de luz lateral e a profundidade deste ambiente (entendendo profundidade como a distância entre a parede limite do ambiente e a parede onde está a janela). Quanto maior a altura da janela, maior pode ser a profundidade deste ambiente.
 

     A largura da janela e o tamanho do peitoril têm também grande influência e possuem quocientes mínimos proporcionais à área do ambiente. São variáveis mais instintivamente compreendidas: se a janela fica em um canto sabemos que o canto oposto, no sentido da largura, receberá menos iluminação natural, ou se um peitoril for muito alto a área próxima à janela que esteja abaixo desta janela receberá pouca luz; e são especialmente afetadas pelo uso do ambiente. 
 

     Por exemplo, em um escritório cuja janela seja piso-teto, a contribuição útil da iluminação natural será somente da altura acima do plano de trabalho, ou seja, da mesa ou de uma bancada. Dali para baixo a luz é pouco aproveitada. O mesmo ocorre na largura da janela, que terá sua utilidade limitada pelo eventual mobiliário que será colocado junto à janela, tais como armários, estantes, etc.  
   
     4.    Bloqueie a Luz Direta:


     Um dos mitos sobre o aproveitamento da Luz Natural é que quanto maior a janela ou abertura, melhor. Grandes aberturas trazem, sim, uma grande quantidade de luz, mas é preciso controlar esta luz e direcioná-la de forma a ser útil e confortável. Na realidade, sem controle e direcionamento a maior parte da luz natural fica próxima à janela, criando um contraste muito acentuado e desconfortável, além de gerar desconforto térmico na maior parte do tempo, na maior parte do país. 
 

     É preciso fazer uso de elementos que filtrem a luz, aumentando seu alcance no ambiente interno, permitindo a entrada de luz solar direta somente em momentos que sejam desejáveis, ou que não sejam incômodos aos usuários. Preferencialmente, estes elementos devem estar fora do ambiente protegido, pois com isso reduzem a quantidade de calor acumulado. Entre estes elementos estão:
 

          •    Brises-soleil ou quebra-sóis, que são elementos externos aos edifícios, usualmente fixos, que bloqueiam a luz direta e podem funcionar também para direcionar a luz para áreas mais afastadas da janela;  


          •    Persianas, que existem em modelos e materiais variados, de uso interno ou externo, que atuam de forma similar aos brises, mas são, geralmente, elementos leves, mais facilmente reguláveis e manutenção menos complexa.


          •    Cortinas, que são uma solução bastante antiga, mas muito efetiva em muitos casos. Cortinas podem bloquear completamente a luz solar ou filtrá-la conforme sua necessidade. A tecnologia trouxe tecidos extremamente duráveis e laváveis que podem ser uma solução muito prática para ambientes residenciais ou comerciais de pequena escala.


          •    Marquises, pergolados, lonas e toldos, que são espécies de extensões da cobertura, com níveis de transparência diversos, que podem muitas vezes ser combinados entre si e com elementos paisagísticos.


          •    Vegetação. Sim, você leu certo. A vegetação pode ajudá-lo a bloquear a luz direta, além de criar um ambiente bastante acolhedor. Desde copas de árvore frondosas até trepadeiras associadas com outros elementos construtivos, podemos criar ambientes que, além do conforto visual e térmico, ainda melhoram a qualidade do ar, dado que a vegetação aumenta a umidade do ar.

 

     5.    Direcione a luz 


     Através de elementos na fachada, prateleiras de luz, parapeitos, tetos e forros inclinados, além de filtros e persianas, podemos direcionar a luz de forma a aproveitá-la melhor, reduzindo o ofuscamento próximo à janela e aumentando a luminosidade das áreas mais profundas do ambiente.


     Até mesmo uma mesa ou um aparador estrategicamente colocado junto à janela, com um acabamento claro e fosco podem auxiliar a distribuir melhor a luz em um ambiente, contanto que tomemos o cuidado de não tornar esta superfície uma nova fonte de ofuscamento.

 

     6.    Utilize tons claros
 

     Trabalhei por muitos anos com o Lighting Designer Guinter Parschalk e, entre muitos ensinamentos bem-humorados, tem um que é especialmente relevante para este assunto: ele dizia com certa frequência que “preto iluminado é preto”. 
 

     Muitas pessoas, inclusive arquitetos renomados e de competência indiscutível, às vezes criam ambientes com acabamentos muito escuros e querem que fique muito iluminado. A questão é que não importa a quantidade de luz que seja emitida para um objeto escuro, ele jamais se tornará claro (a não ser que desbote), pois superfícies escuras absorvem mais luz do que refletem. E quando colocadas ao lado de uma superfície clara, inevitavelmente, parecerão escuras.
 

     Se o ambiente é todo escuro, com, por exemplo, paredes cinza-chumbo, móveis pretos e forro de madeira escura, a janela será sempre um elemento de alto contraste com o ambiente, e este alto contraste tende a criar ofuscamento, que pode criar desde desconforto até inabilitar a visão (pense em uma estrada escura e um carro vindo na direção oposta com o farol alto).
 

     Utilizar acabamentos claros ajuda a distribuir melhor a luz, pois refletem a luz que entra e através de várias reflexões (piso, teto, paredes, móveis, etc) acabam permitindo que a luz alcance maiores distâncias em relação a janela.
 

     Não significa que temos que ter ambientes brancos e insípidos, como vemos com frequência em filmes de ficção científica e/ou futuristas, mas que devemos equilibrar as cores de modo que possamos aproveitar bem a luz natural. Em ambientes corporativos, com inúmeras mesas e divisórias, por exemplo, dificilmente o piso terá uma grande contribuição, portanto ele pode ter cores mais escuras sem grande prejuízo. O elemento que é mais importante que seja claro é o teto/forro, pois ele é que vai dar a maior contribuição para a distribuição da luz refletida nos brises, persianas, móveis, piso, etc. Se possível, as mesas também deveriam ser em tons mais claros, para também contribuir com a reflexão, além do que, para atividades que exijam leitura de papéis, convém que as mesas sejam claras, mas isso é assunto para outro artigo. 

 

     7.    Utilize bons vidros


     Os vidros não são todos iguais: reagem de forma diferente no que diz respeito à transmissão de luz, calor e ruído. Nem sempre o vidro mais escuro é o que vai proteger mais sua edificação do calor e do ofuscamento, nem o mais claro necessariamente trará luz de melhor qualidade para seu ambiente.


     É importantíssimo utilizar bons vidros, que tenham resistência, transmissibilidade luminosa, transmissibilidade térmica e propriedades acústicas apropriadas para o uso do ambiente. Muitas vezes investir em vidros e sistemas de montagem mais complexos geram grande economia em outros sistemas, como iluminação e climatização.


     Existem vidros e sistemas de montagem no mercado que auxiliam, inclusive, na distribuição da luz para o ambiente, com sistemas ópticos complexos que conseguem filtrar a luz de tal forma que grande parte das ondas de calor e de radiação Ultra-Violeta são refletidas e a luz visível é direcionada de forma a alcançar maiores profundidades. 

 

     Um projeto luminotécnico pode contribuir para o melhor desempenho das edificações não somente planejando a iluminação artificial, mas também auxiliando os responsáveis pelo projeto arquitetônico a criar soluções para o aproveitamento e controle da luz natural, afinal é o melhor tipo de iluminação que existe para o ser humano, e está disponível gratuitamente.

 

Escrito por Vinícius Malaco
 

 

 

Substituição de lâmpadas 06 itens a considerar

out/2016

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     Nos últimos anos a tendência de migrar toda a iluminação para tecnologia LED tem ficado cada vez mais forte. Na década anterior, houve a migração em massa das lâmpadas incandescentes para as fluorescentes. Em muitos casos a simples substituição não gera os resultados quantitativos e qualitativos desejados, mas por quê?

     

     A primeira coisa que temos que considerar é que a mera substituição da fonte luminosa tende a ser uma solução carente de qualidade. Muitos de nós acompanhamos o momento em que, com o estímulo governamental, nossas residências, lojas e condomínios passaram a utilizar lâmpadas fluorescentes compactas, substituindo sem muito critério as lâmpadas incandescentes, e quase sempre a mera substituição gerou resultados insatisfatórios, quando não esdrúxulos. 

 

     As luminárias, salvo algumas exceções, são cuidadosamente projetadas para uma fonte luminosa (lâmpada) específica. Portanto, quando substituímos sem uma análise cuidadosa, geramos mais problemas do que soluções. Pode ser muito mais econômico e eficiente substituir luminária e lâmpada, não só pela renovação dos materiais, que têm um desgaste natural (em especial sistemas com refletores e/ou difusores), mas por utilizarmos uma solução adequada para a nova fonte luminosa. Aproveito este momento para fazer um alerta: luminárias têm vida útil! Assim como periodicamente trocamos eletrodomésticos, torneiras e móveis é preciso renovar periodicamente as luminárias de sua casa, escritório, loja, etc. Tenho calafrios quando entro em uma empresa de tecnologia, que preza por uma imagem de modernidade e eficiência, e vejo luminárias cuja idade está próxima da minha... Não se trata de descartar equipamentos que estejam em bom funcionamento, pelo contrário – bons equipamentos que receberam manutenção preventiva podem, de fato, durar algumas décadas – mas de estar atento a soluções mais eficientes, econômicas e duráveis.  

 

     Em segundo lugar, precisamos analisar se a fonte luminosa que escolhemos é apropriada para o local que iremos aplicá-la. Embora uma das características do LED seja que ele emite pouco calor, este é um dos maiores inimigos do LED: quanto mais elevada a temperatura, menor o rendimento luminoso e a vida útil de sistemas LED. Portanto em locais muito quentes ou confinados o LED pode sofrer se não tiver uma dissipação de calor de altíssima performance. Por este motivo, lâmpadas LED que imitam os formatos “tradicionais” tendem a ter vida útil e rendimento luminoso muito inferiores a luminárias desenhadas especificamente para módulos LED integrados, pois no formato de lâmpada o transformador/driver é incorporado à lâmpada, gerando ainda mais calor em um espaço pequeno e, pior: confinado.

 

     No caso da lâmpada fluorescente, que foi projetada para ser utilizada durante longos períodos, utilizá-la em áreas de baixa permanência e/ou com sensores de presença  é uma receita para o prejuízo: nestas condições consomem mais energia e duram menos. Isso ocorre pois no momento em que são acionadas, lâmpadas fluorescentes consomem cerca de 3 vezes mais energia do que sua potência nominal. Isto é, uma lâmpada de 18W, no momento em que é acionada, consome cerca de 54W, consumo este que reduz gradualmente, até atingir um consumo médio de 18W. Com este pico de energia, o sistema sofre um desgaste maior e, se este acendimento ocorre em demasia (cerca de 20 acendimentos diários são o limite, segundo dois dos maiores fabricantes) a vida útil da lâmpada é reduzida consideravelmente.

 

     O terceiro ponto importante é a temperatura de cor da lâmpada. Tanto no caso do LED quanto das fluorescentes, geralmente se encontram no mercado as temperaturas de cor mais elevadas, que são as lâmpadas cuja luz é mais azulada, chamada correntemente de “branco frio”. Embora esta temperatura de cor mais alta seja apropriada para algumas atividades, como trabalho e estudo, em uma residência, restaurante ou loja podem dar um aspecto desagradável, em especial com baixas intensidades. 

 

     A importância da temperatura de cor excede a mera a estética. Ela influencia o funcionamento de nosso ciclo circadiano (vulgarmente conhecido como relógio biológico), pois nosso corpo, durante milênios, se adaptou à luz solar, que muda ao longo do dia e afeta a produção de alguns hormônios. Durante a manhã (supondo que vocês acordem cedo como eu) encontramos uma luz solar mais alaranjada (temperatura de cor mais baixa) que transita com velocidade para uma temperatura de cor média-alta e culmina, nos horários próximos ao meio dia, em temperaturas de cor bastante altas, que são azuladas. Durante a tarde a temperatura de cor volta a baixar gradativamente e, durante o por do sol, fica bastante baixa e alaranjada. 
 

     Quanto maior a parcela de luz azul, maior a produção de cortisol, que é o hormônio que nos deixa em estado de prontidão. Quando os níveis da luz azul, bem como as intensidades de luz, são reduzidos próximos a zero, a produção de outro hormônio, a melatonina, se inicia. Este hormônio nos faz relaxar, dormir e manter o sono, permitindo, com isso, que os sistemas de regeneração celular, fixação da memória, entre outros, possam agir com eficácia.

 

     No momento em que passamos a utilizar luz elétrica, passamos a comprometer este ciclo natural, mesmo com luz alaranjada e suave. Mas quando passamos a utilizar iluminação com espectros com grande quantidade de luz azul, tornamos a situação crítica: distúrbios de sono tornam-se mais comuns e, com eles, maior ocorrência de estresse, obesidade, pressão arterial desregulada, entre outros. Embora não seja a única responsável (afinal hábitos estressantes, alimentação desregrada e outros elementos contribuem muito para esta situação) a iluminação tem sua parcela de responsabilidade, que embora não seja pequena, muitas vezes é desprezada.

 

     Portanto, geralmente são utilizadas temperaturas de cor mais alta para atividades que necessitam de muita atenção, como escritórios, salas de aula, produção industrial, salas de cirurgia, salas de ginástica aeróbica, etc, e devem ser utilizadas em grandes intensidades, pois a luz natural, quando nesta faixa de temperatura de cor, é extremamente abundante. Para atividades de descanso, onde o foco é a descontração, atividades criativas, meditativas ou contemplativas, a tendência é utilizar menores intensidades de luz e menores temperaturas de cor, mais uma vez mimetizando o que ocorre com a luz natural. Levar isso em consideração pode ajudar nossa saúde, desempenho no trabalho, criatividade, vendas, etc.

 

     O quarto item a ser considerado é a reprodução de cor das fontes luminosas: embora as lâmpadas incandescentes tenham uma reprodução de cor muito fiel à luz do Sol (que é a referência utilizada), as outras tecnologias disponíveis no mercado têm grandes variações e, em alguns casos, não atentar-se a isso pode gerar problemas críticos.

Há uma anedota da época em que as lâmpadas fluorescentes começaram a ser utilizadas em escritórios: após algumas semanas, as pessoas começaram a achar que a luz estava deixando-as doentes, pois as pessoas pareciam pálidas e até mesmo esverdeadas. Na realidade o problema não estava na pele dos funcionários, mas o fato de que a lâmpada distorcia as cores. 

 

     Este problema pode parecer bobo ou fútil, mas imagine vender uma peça fresca de picanha com uma luz que distorce o vermelho da carne para algo próximo do marrom. Você perdeu a venda e talvez ganhe a fama de vender carne estragada. Ou uma mulher que faz sua própria maquiagem para uma festa, acha que está linda e, quando chega à festa, percebe que a maquiagem está muito mais forte do que imaginava, pois a luz que usou para se maquiar não reproduz o vermelho com a intensidade real.

 

     Comumente o que se considera uma boa reprodução de cor é um IRC (índice de reprodução de cor) igual ou superior a 80 (a escala vai de 0 a 100). Mas mesmo com altos índices, ainda ocorrem distorções, pois este índice considera uma média e, portanto, pode distorcer cores específicas. Isso significa que pode haver fontes luminosas com o mesmo IRC que reproduzem a cor de, por exemplo, uma camiseta verde de formas visivelmente diferentes. Ainda está em estudo uma forma mais precisa para mensurar esta característica da luz, mas enquanto isso, devemos estar atentos ao IRC e fazer testes conforme nossas necessidades.

 

     A quinta consideração se refere à forma de controle da luz: em especial me refiro ao controle de intensidade luminosa, conhecido como "dimerização". Não raro ambientes residenciais, restaurantes e lojas utilizam este recurso para criar ambientações mais apropriadas para momentos específicos. Também em ambientes de trabalho este recurso é utilizado como estratégia de economia de energia, associado a sistemas que aproveitam a luz natural.

 

     Mas nem todas as fontes luminosas (lâmpadas) permitem o controle de intensidade da mesma forma: as lâmpadas incandescentes variam sua intensidade de uma forma "mecânica", apenas reduzindo a tensão elétrica que as alimenta. Mas as tecnologias fluorescentes e LED funcionam de forma diferente. Em alguns casos a variação de tensão resolve, em outros cria distorções (luz piscante) ou sequer funcionam. Tudo dependerá do reator ou driver utilizado, que deve também ser compatível com o sistema de dimerização. Grande parte das lâmpadas LED e fluorescentes compactas possuem reator integrado, isto é, ele está dentro do corpo da lâmpada. Nestes casos só é possível a dimerização se o reator que foi colocado dentro da lâmpada pelo fabricante permitir este recurso. Mesmo quando não possuem reator integrado, nem todas as lâmpadas têm reatores que permitem controle de intensidade, portanto fique atento, leia atentamente as instruções e faça testes.

 

     Por último, mas não menos importante, é preciso levar em consideração a distribuição das luminárias no espaço. Tradicionalmente encontramos em residências um único ponto central para iluminar um ambiente. Embora pareça algo que ficou no passado, ainda hoje se projetam e são entregues apartamentos e casas com esta infra-estrutura elétrica. Mas nem sempre esta é a melhor forma de iluminar este ambiente. 

 

     O posicionamento das luminárias deve estar intimamente ligado ao uso do espaço e, portanto, à distribuição de móveis, equipamentos e objetos decorativos. Quando pensamos em substituição de lâmpadas por tecnologias mais atuais pensamos em um melhor resultado com menor consumo é maior durabilidade. Muitas vezes o posicionamento da iluminação é crucial para que o resultado seja o esperado, sem causar desconforto visual (ofuscamento, em especial). Um exemplo banal, mas bastante elucidativo, é o posicionamento de um lustre ou pendente sobre uma mesa de jantar. Se a mesa muda de posição, ou às vezes de formato ou tamanho, a posição do lustre deve acompanhar. O mesmo ocorre com um espelho de banheiro, luminária de cabeceira ou iluminação em um provador: a posição é essencial para o bom funcionamento da iluminação. 

 

     E vale lembrar que nem sempre precisamos fazer uma pequena reforma para revermos a posição de uma luminária. Há recursos de diferentes tipos, aparências e custos para solucionar estes ajustes, basta informar-se e usar a criatividade.

 

     Espero ter esclarecido algumas dúvidas comuns e ajudado a melhorar a qualidade dos seus espaços. Quem tiver mais dúvidas entre em contato conosco para que possamos atender seu caso específico.

 

Escrito por Vinícius Malaco

 

 

Arquitetura dos Sentidos

set/2016

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     Acabo de retornar do EILD (Encuentro Iberoamericano de Lighting Design) realizado na cidade de Ouro Preto e, como anunciado desde 2015, o evento foi transformador. Uma transformação intensa, não-linear e holística, que certamente só poderia ocorrer desta maneira na cidade de Ouro Preto.

 

     Embora alguns tenham se decepcionado por não terem visto tanto conteúdo tradicional sobre Lighting Design, creio que a herança que o Encuentro deixa é muito mais complexa e abrangente: falou-se sobre processos que estimulam a criatividade, processos criativos, processos construtivos, história e patrimônio. Estas palestras forneceram suporte e sensibilização para as experiências sensoriais que foram feitas em paralelo: uma mais contínua, que consistia em visitar vários pontos da cidade - dois deles com intervenções artísticas feitas especialmente para a ocasião do evento - e nos desafiava a associá-los com frases poéticas, mas mais do que tudo a observá-los de uma forma não-usual; outra, com a equipe Sentidos Urbanos, que nos convidava a fruir a cidade utilizando todos os nossos sentidos, experimentar a ausência de alguns deles e a desvendar alguns mistérios da cidade e de nossa percepção; em uma terceira experimentação, fomos convidados a entrar em sete espaços pequenos, projetados por Lighting Designers, com propostas diferentes de interação com a luz, mas todos eles extrapolaram o sentido da visão e incluíam outros estímulos sensoriais. Tudo isso com participação bastante ativa da comunidade local, em especial os estudantes.

 

     Todas estas ações, que poderiam parecer desconexas, foram essenciais para temperar a experiência da cidade de Ouro Preto: seu relevo, sua arquitetura, sua cultura, seu povo, a presença marcante da Universidade e das Repúblicas Estudantis, a atmosfera religiosa, etc. E neste ponto passo a um relato muito pessoal. 

 

     Há cerca de um ano iniciei um processo intenso de reflexão do significado da minha carreira como Arquiteto e Lighting Designer; momento em que decidi me desligar de um dos escritórios mais importantes do Brasil desta especialidade, para o qual dediquei oito anos de meu trabalho e aprendi mais do que consigo colocar em palavras. Mas sentia falta de algo.

 

     Desde então tenho buscado as peças que faltam para completar o quebra-cabeça deste momento da minha carreira - e da minha vida, devo confessar - através do estudo de temas aparentemente alheios à temática do Lighting Design e me lançado em experiências que adiei por muito tempo e que, surpreendente, surgiram no meu caminho, de maneira que não podia deixar de agarrá-las.

 

     Formado em 2007 nunca havia conhecido Brasília, Barcelona ou Ouro Preto, o que é bastante patético para um estudante de arquitetura (sim, estudante: o diploma não me priva deste privilégio e desta obrigação moral de estudar). Neste ano visitei as três cidades, com experiências completamente diversas e complementares que, com o Encuentro em Ouro Preto, culminaram em uma percepção diferente da carreira: mais do que Lighting Design e Gestão de Projetos (que compōem o mix de serviços da empresa que criei em conjunto com a arquiteta Regina Docha) penso em uma Arquitetura dos Sentidos.https://ssl.gstatic.com/ui/v1/icons/mail/images/cleardot.gif

 

     Esta Arquitetura os Sentidos tem alguns níveis bastante claros para mim nesta reflexão inicial (creio que outros surgirão, e talvez outros se mesclarão ao longo do processo de pesquisa e prática). O primeiro entende o sentido como percepção, baseia-se, portanto, nos cinco sentidos humanos: visão, audição, tato, olfato e paladar. A experiência humana ocorre com todos estes sentidos, mas de modo geral os arquitetos priorizam a visão, expressando-se muito plasticamente e agradando muito este sentido, mas deixando outros em planos subordinados. Pensemos: qual é a expressão auditiva de nossos projetos? E quanto à tátil? Olfativa? Quiçá até mesmo o paladar?

 

     O segundo entende o sentido como significado, que abarcaria estudos semióticos, fenomenológicos, psicológicos e sócio-culturais. Como a arquitetura cria sentido para os espaços ou, melhor dizendo, como a arquitetura pode servir o usuário para que ele crie o significado do espaço?

 

     O terceiro nível identificado é o sentido entendido como direção, como postura transformadora de uma realidade existente. Uma vez conhecendo a experiência completa com a percepção e a interpretação/significação da Arquitetura, qual é a linha de ação para que criemos espaços que abriguem a vida humana em toda sua complexidade? Cumprir os requisitos mínimos atende as nossas necessidades mais subjetivas?

 

     Nas grandes cidades vivemos uma privação de sentidos, nestes três aspectos.  O cinema americano retrata bem esta situação em, ao  menos, dois filmes, com qualidades e abordagens bastante distintas: Waking Life e Crash: No Limite. O primeiro trata do despertar de uma vida anestesiada, com relações sociais rasas e insossas, para algo com mais significado e espontaneidade; o segundo mostra algumas das conseqüências do funcionamento de nossas cidades e economias nos sentidos e emoções de seus habitantes. Em suma, ambos tratam de uma sociedade entorpecida, desconectada, insegura, alienada e sem direção. Como Designer, entendo que é minha responsabilidade melhorar a vida das pessoas (não necessariamente facilitar: a dificuldade tende a ser uma forte aliada, senão uma condição, para a apropriação de espaços e experiências) despertando sensações, percepções, significados. Portanto, colaborar para a criação de sentidos, em todos os níveis, é o caminho que se abre para mim neste momento.

 

     A lembrança mais marcante deste Encuentro foi, como não podia deixar de ser, a mais simples: observar um vaga-lume nas proximidades da instalação CampOuro e ser por ele “convidado” a sentar em um banco em uma área quase absolutamente escura do espaço público onde estava a instalação e fazer algo que, em São Paulo, não me recordo de fazer desde a minha infância: observar as estrelas.

 

Escrito por Vinícius Malaco